terça-feira, 11 de Março de 2008

Your mother wouldn't like it

Dando seguimento ao gosto duvidoso seguido a rigor por este blogue, passo agora a palavra a John Cheever que, em Falconer (Sextante Editora, 2007), fez dos remorsos alheios uma fonte de delirante humor. Uma coisa deplorável, John.

História do prisioneiro Stone:

«Todos falavam do Stone. Uma organização criminosa qualquer tinha-lhe furado os tímpanos com um picador de gelo. Depois tinham-lhe armado uma ratoeira, arranjaram maneira de ele ser condenado a uma pena pesada e ofereceram-lhe um aparelho auditivo de duzentos dólares.» (pág. 34)

História do prisioneiro Cuckhold:

«Ainda Farragut não fazia parte da família há uma semana quando o Cuckhold lhe fez uma visita. Era um tipo gordo com uma careca rosada, cabelo ralo e um sorriso irritante e exagerado. O mais interessante em relação a ele eram os negócios que fazia. Pagava um maço de cigarros mentolados por cada par de colheres que alguém gamasse no refeitório. Na oficina transformava as colheres em pulseiras e Walton, o cabo da cela, passava-as para o exterior dentro da roupa interior e traficava-as num bazar da cidade mais próxima, onde eram expostas como tendo sido feitas por um condenado à morte. Eram vendidas a vinte e cinco dólares. Com os lucros, tinha a cela sempre cheia de latas de presunto, de frango, de sardinha, de manteiga de amendoim, bolachas e massas, que usava como isco para pôr os outros a ouvirem-no a contar as histórias da mulher. «Deixa que te ofereça uma boa fatia de presunto», disse ele a Farragut. «Senta-te, senta-te, e serve-te de uma boa fatia de presunto, mas primeiro deixa-me contar-te por que estou aqui. Limpei a minha mulher por engano. A noite em que a limpei foi a noite em que ela me disse que nenhum dos três miúdos era meu. E ainda por cima disse-me que os dois abortos que eu paguei e o aborto espontâneo que ela teve também não eram meus. Foi aí que eu a limpei. Mesmo quando as coisas andavam bem, não se podia confiar nela. Houve uma semana ou quinze dias que passámos praticamente a foder o tempo todo. Eu trabalhava em vendas, mas estávamos na estação baixa e ficámos o tempo todo em casa a foder, a comer e a beber. E vai ela então diz que estávamos a precisar de fazer férias de fodermos um com o outro e eu vi logo onde ela queria chegar. Eu estava mesmo apaixonado. Que formidável desaparecermos por uns quinze dias, dizia ela, e que maravilha voltarmos depois a estar juntos. Não era? E como vi logo o que ela queria dizer com aquilo, voltei para a estrada por uns quinze dias, mas uma noite apanhei um pifo no Dakota do Sul e fui para a cama com uma desconhecida e fiquei cheio de remorsos e por isso quando voltei para casa e despi as calças achei que tinha de lhe confessar que tinha sido impuro e foi o que fiz. E vai ela beija-me e diz-me que não fazia mal e que ficava contente por eu ter confessado porque ela também tinha uma confissão a fazer. Contou-me que no dia em que eu tinha ido embora, ela tinha apanhado um táxi até à outra ponta da cidade para ir ver a irmã e que o taxista tinha uns olhos pretos tão brilhantes que parecia que ficavam colados nela e que tinha ido para a cama com o taxista depois de ele largar às dez. E no dia a seguir foi ao Melcher’s comprar comida para o gato e houve um acidente em cadeia de que ela foi testemunha e então quando estava a ser interrogada por um polícia de trânsito muito bonito ele perguntou-lhe se podiam continuar o interrogatório em casa e então foi para a cama com ele. E depois nessa noite, precisamente nessa mesma noite, apareceu-lhe um antigo colega do liceu e ela, ainda molhada do outro, foi para a cama com ele. E então no dia seguinte, logo a seguir, quando estava a meter gasolina no Harry’s tinha ficado cheia de tesão com o novo empregado da bomba e disse-me que ele ia lá a casa à hora de almoço.» (pp. 36-38)

Com o verbo «foder» a aparecer três vezes neste segundo excerto, é provável que o número de visualizações deste blogue aumente em flecha (o Julinho que se cuide, portanto). Contudo, e porque o seguro morreu de velho, acrescento o dizer 'FREE SEX PICS'.