
Regressava a casa, ladeada por carros, prestando mais atenção ao rádio do que ao trânsito. Fazia aquele percurso quase todas as noites, demorando por vezes quarenta minutos a sair da cidade para depois entrar na auto-estrada. Não era tão mau quando conseguia desenvencilhar-me do trabalho mais cedo e fazia o percurso antes da hora de ponta, ou quando tinha de trabalhar até mais tarde. Mas, fosse como fosse a viagem, evitava quase sempre pensar na quantidade de horas que passava à frente do volante, ainda que, bem vistas as coisas, fosse esse o único tempo que tinha para mim, um tempo no qual fazia a transição entre a pessoa que era durante o dia e a pessoa que era à noite, em casa, no lugar onde, supostamente, deveria conseguir relaxar. Deveria conseguir relaxar. Curiosa a forma como desde há muito tempo tinha passado a associar as palavras ‘deveria’ e ‘relaxar’. Talvez fosse esse o problema: o dever que se impunha de diferentes formas, o livre arbítrio que me fora vedado. Primeiro à esquerda, a direito até aos semáforos, terceira à esquerda na rotunda, depois em frente, novamente à esquerda. Devia ter virado à esquerda. Devia, mas em vez disso segui em frente e estacionei pouco depois. Entrei num café; pedi um chá e, enquanto esperava, quedei-me no balcão a contemplar a minha pequena mudança. O café estava quase vazio; as pessoas deviam estar a preparar-se para jantar. Ocorreu-me que, àquela hora, também eu estaria a preparar-me para jantar caso tivesse virado à esquerda naquele último entroncamento. Pedi um daqueles snacks que, sabemos de antemão, apenas serem tragáveis se previamente amolecidos no microondas. Sentei-me no lugar à janela e comi o dito snack sem fazer uso dos guardanapos de papel, coisa que, tenho a certeza, o António teria odiado. Diria: «Não comas com as mãos. Dizia-o mesmo quando comprávamos frango assado e batatas fritas, e, uma vez em casa, obrigava-nos a comer em pratos e com os talheres. Mas as suas mãos estavam sempre sujas. Tudo ali era sujo: os subúrbios encontravam-se pejados de fábricas de cujas chaminés saíam fumos de cheiro e cor similares, nauseabundos, monótonos. Talvez por estarmos habituados, só raramente reparávamos nisso.
A cidade, em comparação, se lhe ignorássemos o trânsito, era um lugar bastante agradável. Pude observar isso quando comecei a trabalhar no centro: as longas e largas avenidas, o grande jardim que jamais perdia o tom da fresquidão, os monumentos imponentes de pedra imaculada, o langor com que os barcos se faziam ao rio, a dormência com que as gentes se espraiavam nas esplanadas. Tudo permanecia igual ao que sempre fora, mas, só então, com a minha vinda para o centro, é que comecei a apreciar aquilo que antes me passava despercebido. E não me era difícil perceber porquê: o ‘antes’ ligava as vindas à cidade às compras de Natal, à agitação própria da época; isto nos anos bons, já que em todos os outros o Natal não era lá grande coisa. Com efeito, destes permanece até um sentimento de culpa que, de quando em quando, se me apodera: a maior parte das coisas que conseguíamos arranjar era-nos dada por estranhos, e, uma vez, a Xana recebeu uma boneca que a deixou radiante. Esse episódio, mais do que qualquer outro, deixou-me transtornada: alguém que não nos conhecia de lado algum, que desconhecia tudo aquilo por que passávamos, havia-me substituído na obrigação de dar à minha filha aquela boneca.
(continua)






