
(< I)
A minha filha mais velha nasceu quando eu era ainda muito jovem. No final da década de sessenta já ouvíamos falar em novos direitos, em novas liberdades; contudo, nada disso atingia realmente o nosso dia-a-dia. Algumas raparigas fugiam para a cidade apenas para, nas mais das vezes, tornarem a casa grávidas. Outras, como eu, não precisavam de ir a lado algum para que o mesmo lhes acontecesse. É certo que a pílula já existia nessa altura; porém, nem por sombras eu iria ter com o dr. Nazário, que havia estado presente no meu nascimento, para que ele ma desse. E tão pouco pensava em ir ao hospital da cidade, já que não tinha a certeza de lá atenderem raparigas solteiras. Faltavam-me ainda a coragem, uma boa desculpa para justificar a minha ida à cidade e o dinheiro necessário para a viagem.
Nessa altura o António já trabalhava no estaleiro e, embora não pensássemos muito nisso, era quase certo que acabaríamos por casar. Era assim na minha família: as mulheres e os homens do estaleiro. A minha mãe costumava dizer: «Os nossos homens têm trabalhado no estaleiro desde que ele abriu, e alguns até lá perderam a vida.» Esta última parte era dita com alguma emoção; havia nela um sentimento de pertença, pago com suor e sangue. De resto, nem tentava disfarçar. O ar comovido havia-se tornado uma prerrogativa sua desde a morte do meu pai, ocorrida no estaleiro, tinha ele cinquenta e seis anos.
Tenho hoje a certeza de que não fosse pela repetição dessas palavras e todos nós teríamos a impressão de já muito tempo ter decorrido sobre a sua morte. Afirmo-o porque, agora que também essas palavras cessaram, a evidência de que o tempo acabou por passar em demasia, por fugir de repente como que afogueado após um tão largo período passado em cativeiro, é esmagadora. Primeiro foi o encerramento do estaleiro, depois a morte da minha mãe. Tudo mudou tão radicalmente que temo ainda não me ter apercebido de todas as mudanças que entretanto se operaram. Sabem como é, em nova também fiz os meus disparates; porém, anos mais tarde, quando comecei a aperceber-me de algumas das asneiras levadas a cabo pelas minhas filhas, e quando, por essa mesmíssima razão, devia ter assumido uma postura mais rígida, fiquei como que paralisada ao sentir esse correr afogueado do tempo.
A Alexandra, talvez por ser demasiado parecida comigo, é a que mais me preocupa. Saiu da escola depois de pouca atenção lhe prestar, gasta demasiado tempo em rapazes. Trabalha numa sapataria, numa dessas lojas que primeiro parece uma sapataria mas que, descobrimos ao entrar, também alberga um café, uma loja de discos, etc. Pensa que é totalmente independente, que pode fazer tudo o que lhe passa pela cabeça (felizmente, o pai ainda lhe vai conseguindo impor algumas regras). Também não parece interessada em casar, em ter filhos – diz-me, como se eu o não soubesse já, que isso lhe arruinaria a figura. Não parece, para ser sincera, interessada em muita coisa.
(continua)





