terça-feira, 27 de Maio de 2008

A caminho de casa – II

A caminho de casa – II

(< I)

A minha filha mais velha nasceu quando eu era ainda muito jovem. No final da década de sessenta já ouvíamos falar em novos direitos, em novas liberdades; contudo, nada disso atingia realmente o nosso dia-a-dia. Algumas raparigas fugiam para a cidade apenas para, nas mais das vezes, tornarem a casa grávidas. Outras, como eu, não precisavam de ir a lado algum para que o mesmo lhes acontecesse. É certo que a pílula já existia nessa altura; porém, nem por sombras eu iria ter com o dr. Nazário, que havia estado presente no meu nascimento, para que ele ma desse. E tão pouco pensava em ir ao hospital da cidade, já que não tinha a certeza de lá atenderem raparigas solteiras. Faltavam-me ainda a coragem, uma boa desculpa para justificar a minha ida à cidade e o dinheiro necessário para a viagem.
Nessa altura o António já trabalhava no estaleiro e, embora não pensássemos muito nisso, era quase certo que acabaríamos por casar. Era assim na minha família: as mulheres e os homens do estaleiro. A minha mãe costumava dizer: «Os nossos homens têm trabalhado no estaleiro desde que ele abriu, e alguns até lá perderam a vida.» Esta última parte era dita com alguma emoção; havia nela um sentimento de pertença, pago com suor e sangue. De resto, nem tentava disfarçar. O ar comovido havia-se tornado uma prerrogativa sua desde a morte do meu pai, ocorrida no estaleiro, tinha ele cinquenta e seis anos.
Tenho hoje a certeza de que não fosse pela repetição dessas palavras e todos nós teríamos a impressão de já muito tempo ter decorrido sobre a sua morte. Afirmo-o porque, agora que também essas palavras cessaram, a evidência de que o tempo acabou por passar em demasia, por fugir de repente como que afogueado após um tão largo período passado em cativeiro, é esmagadora. Primeiro foi o encerramento do estaleiro, depois a morte da minha mãe. Tudo mudou tão radicalmente que temo ainda não me ter apercebido de todas as mudanças que entretanto se operaram. Sabem como é, em nova também fiz os meus disparates; porém, anos mais tarde, quando comecei a aperceber-me de algumas das asneiras levadas a cabo pelas minhas filhas, e quando, por essa mesmíssima razão, devia ter assumido uma postura mais rígida, fiquei como que paralisada ao sentir esse correr afogueado do tempo.
A Alexandra, talvez por ser demasiado parecida comigo, é a que mais me preocupa. Saiu da escola depois de pouca atenção lhe prestar, gasta demasiado tempo em rapazes. Trabalha numa sapataria, numa dessas lojas que primeiro parece uma sapataria mas que, descobrimos ao entrar, também alberga um café, uma loja de discos, etc. Pensa que é totalmente independente, que pode fazer tudo o que lhe passa pela cabeça (felizmente, o pai ainda lhe vai conseguindo impor algumas regras). Também não parece interessada em casar, em ter filhos – diz-me, como se eu o não soubesse já, que isso lhe arruinaria a figura. Não parece, para ser sincera, interessada em muita coisa.

(continua)

terça-feira, 20 de Maio de 2008

Despejar o saco – Livros à data

Aqui fica a lista de tudo quanto li nestes últimos seis meses. É, como se espera, uma espécie de balanço mais ou menos final, e, devido à sua ordenação qualificativa, poderá suscitar algumas discordâncias. Por essa razão, desde já aviso que com ela não pretendo atingir o rigor quase científico com que normalmente são apresentadas estas coisas.

Despejar o saco à data: Curiosidaes

Acrescento à mesma algumas curiosidades que, por falta de tempo ou dinheiro, não tive ainda a oportunidade de ler: Robert Musil, O homem sem qualidades (Dom Quixote): possuo a edição da Livros do Brasil, mas, segundo me foi dito, a presente tradução é muitíssimo melhor; John Updike, Regressa, Coelho (Civilização): lembro a Civilização que a edição da totalidade da tetralogia Coelho (acrescente-se-lhe ainda uma pequena novela, editada em 2001, em que Updike torna levemente à história de Harry Angstrom) seria muito bem vista por estes lados; Rubem Fonseca, Ela e outras mulheres (Campo da Literatura): fiquei com curiosidade após ter lido a recensão do Eduardo Pitta; Jorge Reis-Sá, Todos os dias (Dom Quixote): Primeiro romance deste jovem escritor português, já comparado a autores como Jorge Luís Borges e José Saramago.

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Livros de 2008*:

 Despejar o saco à data 1
01. Fiódor Dostoiévski, Demónios (Presença);
02. Lev Tolstoi, A morte de Ivan Ilitch (Booket / Dom Quixote);
03. Alphonse Daudet, Sapho (Booket / Dom Quixote);
04. José Donoso, Casa de campo (Cavalo de Ferro);
05. Philip Roth, Património (Dom Quixote).

Outras leituras (e releituras)*:

Despejar o saco à data 2
01. Fiódor Dostoiévski, Cadernos do subterrâneo (Assírio & Alvim, 2000);
02. Thomas Mann, A morte em Veneza (Relógio D’Água, 2004);
03. Ernest Hemingway, O adeus às armas (Livros do Brasil, 2003);
04. Ernest Hemingway, O velho e o mar (Livros do Brasil, 2006);
05. Ernest Hemingway, O Sol nasce sempre (Fiesta) (Livros do Brasil, 2007);
06. John Steinbeck, A um deus desconhecido (Livros do Brasil, 2007);
07. Ernest Hemingway, Por quem os sinos dobram (Livros do Brasil, 2007);
08. Nikolai Leskov, Lady Macbeth de Mtsensk (Hespéria, 2007);
09. John Cheever, Falconer (Sextante, 2007);

 Despejar o saco à data 3
10. John Steinbeck, O milagre de São Francisco (Livros do Brasil, 2007);
11. Arthur Miller, A view from the bridge / All my sons (Penguin, 1961**);
12. Ernest Hemingway, As neves do Kilimanjaro (Livros do Brasil, 2005);
13. Saul Bellow, Aproveita o dia (Texto Editores, 2007);
14. Gabriel García Márquez, A revoada (Quetzal Editores, 2002);
15. Ernest Hemingway, Paris é uma festa (Livros do Brasil, 2005);
16. Ernest Hemingway, As verdes colinas de África (Livros do Brasil, 2001);
17. Orhan Pamuk, O meu nome é Vermelho (Presença, 2007);
18. Gonçalo M. Tavares, Jerusalém (Caminho, 2005);

 Despejar o saco à data 4
19. Paul Auster, A trilogia de Nova Iorque (Asa, 1999);
20. Saul Bellow, A vítima (Texto Editores, 2006);
21. Daniel Defoe, Diário da Peste de Londres (Bonecos Rebeldes, 2007);
22. Philip Roth, Traições (Bertrand, 1991);
23. Gonçalo M. Tavares, O senhor Walser (Caminho, 2006).

À parte (***):

 Despejar o saco à data 5
- David Mourão-Ferreira, Um amor feliz (Presença, 1986);
- Gonçalo M. Tavares, Água, cão, cavalo, cabeça (Caminho, 2006);
- Haruki Murakami, Em busca do carneiro selvagem (Casa das Letras, 2007);
- Phillip Margolin, Gone, but not forgotten (Doubleday, 1993**).

* Segundo a data de edição ou reedição em Portugal, excepto em **.
*** Ordem alfabética por autor.

quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Nem uma passinha?

E de repente todo o meu Portugal entra em festa! E nem é por causa do futebol ou tão pouco por causa do bom tempo, da sardinha assada no pão, da febra acabadinha de sair das brasas, do manjerico com rima malandra, do alho-porro na cabeça de Rui Rio. Não, não há santo ou deus do esférico capaz de ombrear com o primeiro-ministro José Sócrates, principalmente quando este é apanhado em falta. Explico: o interesse não está numa qualquer medida tomada pelo seu executivo para pôr cobro aos aumentos dos preços dos combustíveis, dos cereais ou de outros bens que tais (deixa cá cheirar o manjerico). Não, isso, até pelo seu carácter quimérico, já não interessa a vivalma. Interessa, sim, o escândalo, a injuria parlamentar, a previsão sobre quando irá Paulo Portas perder o pouco cabelo que lhe resta, ou sobre quando irá Nuno Melo aparecer penteado, ou, até, quem sabe um dia, sobre quando irá algum militante do Bloco Esquerda aparecer de gravata. Assim, um primeiro-ministro José Sócrates que é apanhado em falta (para quem ainda não sabe, parece que fumou, juntamente com os comparsas, um cigarrito num voo fretado pelo governo à TAP) é coisa para aparecer nas primeiras páginas dos jornais, para abrir os noticiários televisivos e, melhor ainda, para abrilhantar as conversas dos meus patrícios durante os próximos quinze dias. Contudo, o que poucos parecem notar é que, ao estar em falta para com os portugueses, José Sócrates acaba por uni-los tal como Bill Clinton uniu os estadunidenses quando se ‘fez’ à estagiária Monica Levinsky. Mas, caramba: até nisso somos pobres.

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

O campeão do mundo

O sr. Fernando Fernandes apresenta-se a ele próprio como «o campeão do mundo». Apesar dos seus sessenta e muitos anos, ainda se lembra de como foi o melhor na escola (ainda que, uma vez terminada a escolaridade obrigatória, tenha ido pastar cabras para a Serra da Estrela), o melhor na tropa (serviu em Moçambique), o melhor no negócio.
Actualmente continua a abrir o seu estabelecimento a amigos e outros conhecidos de longa data. É uma taberna exígua onde, além do próprio, apenas cabem duas pessoas; possui uma única mesa, duas cadeiras e uma arca frigorífica onde guarda as cervejas e algumas, poucas, sobremesas lácteas – diz que, «por vezes, os clientes [a quem também chama de camelos] gostam de uma coisinha doce». Há ainda as paredes: mal se lhes nota a cor esbatida que jaz nas poucas abertas que entremeiam posters de mulheres nuas, jornais desportivos que anunciam glórias passadas do Benfica, uma colecção de moedas colada a uma folha de cartão, a letra de um fado composto pelo proprietário, a história da sua vida escrita em verso, em cuja capa podemos ver uma fotografia do sr. Fernandes aquando da temporada que passou em Moçambique («Eu era o Elvis Presley»), e vários falos feitos a partir de espigas de milho e ossos de vaca.
Passando da taberna para a casa do sr. Fernandes, logo me deparo com uma outra sua colecção: são pedras, algumas bastante grandes, que o próprio apanhou, em inúmeras caminhadas que empreendeu pelas matas, e pintou de acordo com as ideias sugeridas pelos formatos destas. Ao longo dos anos foi reunindo uma colecção que abarca não só representações de membros da sua família como também de algumas grandes figuras nacionais: Luís Vaz de Camões, Macaco Adriano, etc.
Pergunto-lhe se não receia ser assaltado, ao que ele me responde: «Alguma vez?! Tenho aqui estas duas fuscas; uma é de alarme, mas a outra é para matar. Não tenha medo: toda a vida lidei com armas.» E logo se apressa a confirmar os créditos: «Está a ver esta patilha? Só depois de rodada é que a arma fica pronta a disparar!»
Nesse momento, talvez trazido pela Providência, entra um cliente. «Ó meu grande camelo!», diz-lhe Fernando Fernandes. «Se queres uma cerveja, vai tu buscá-la!»
O «camelo» estranha-me a princípio, mas depois percebe por que razão ali estou. Começa então a falar-me do espólio do sr. Fernandes: «Já viu as pedras? E a vida dele em verso?» O sr. Fernandes oferece-lhe um esgar e chama-o novamente de camelo. «Não tens nada que estar a falar das minhas coisas.»

segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Não estou aqui

Há que dar crédito à TVI; pois quem senão ela zela pelos interesses dos pobres coitados que, ao chegarem ao final da semana feitos num oito, desejam receber as novas do mundo numa espécie de condensado pronto a servir e de fácil assimilação – é que estiveram a semana inteira a trabalhar, a atentar nos putos, a arrumar a cozinha depois do jantar, a dormir como quem não espera pela queca de sábado à noite; é que até precisam de umas opiniões para usarem no fim-de-semana, em casa dos sogros, nas reuniões não planeadas dos domingos à tarde, onde encontram outros casais com outros filhos (os nomes pouco variam).
A TVI é, pois, a encarnação empresarial da Providência. É disso prova o novíssimo espaço informativo que, na passada sexta-feira, abriu portas. Passou-se assim: depois do usual rol de reportagens (abóboras gigantes, a boa prestação do canal nas últimas sondagens e, vá lá: já conhece a nova banda do momento formada por quatro jovens que, além de cantarem, também são actrizes e ‘aparecem’ na telenovela da moda?), seguiu-se a cereja em cima do bolo: Manuela Moura Guedes – sim, voltou! –, munida de uma procuração passada por Vasco Pulido Valente, discorreu, com as palavras deste, sobre os mais variados assuntos que, previamente, iam sendo introduzidos por intermédio de pequenos blocos de imagens. O desempenho foi notável, digno de um globo de ouro (fosse o marido director da SIC). No entanto, como nisto da idade a sociedade não perdoa (especialmente às senhoras), não sei até que ponto é que Moura Guedes conseguirá fazer sombra às tais quatro jovens que, além de cantarem, também são actrizes e ‘aparecem’ na telenovela da moda. Na melhor das hipóteses fará um boa dupla com o jornalista a quem Miguel Sousa Tavares irá, em breve, passar uma procuração para, claro está, vociferar contra Pulido Valente.
Enquanto isso não acontece, nós por cá ficamos a dormir como quem não espera pela queca de sábado à noite.