sexta-feira, 27 de Março de 2009

Não fosse cá por coisas e acharia que os Transportes da Região de Lisboa haviam encomendado a Franz Kafka o texto das condições gerais de utilização do cartão de identificação de cliente. A suspeita assomou-se-me logo ao início da leitura que fiz destas: «O Cartão de Identificação de Cliente, doravante designado por cartão, é propriedade da Entidade emitente, doravante designada por entidade […]»
Em A taça de ouro, John Steinbeck era já um homem de pequenos nadas: 1. «Sir Edward Morgan assumira o comando de uma expedição contra Santo Eustáquio. Enquanto a batalha estava no auge, um índio pequeno e acastanhado espetou-lhe uma grande faca no ventre. O vice-governador cerrou os dentes e rolou no solo. “Os meus calções brancos vão ficar estragados”, pensou ele. “Porque seria que este demónio me acertou desta maneira, quando as coisas estavam a correr tão bem? Teria recebido grandes agradecimentos de Sua Majestade… Conceder-mos-á a título póstumo… Por Deus! Escolheu um ponto bem doloroso!” Depois, dando-se conta da importância do drama: “Um facalhão ordinário em pleno estômago”, murmurou ele. “Teria preferido uma espada empunhada por um dos meus pares. Mas uma facada! […] Esse demónio deslizou até mim e espetou-me a sua faca no estômago. Suponho que não era suficientemente alto para me atingir mais acima.»; 2. «Como te arranjarias para conseguir os favores de semelhante mulher? O chicote não me parece recomendável em semelhante circunstância.»

2 comentários:

Pedro Jordão disse...

Já estava a ver quando é que, depois de tanto Steinbeck lido, viriam textos como este. Claro que depois vem o sentimento de culpa, dos anos de adiamentos, já que lhe ignorava esse tipo de humor.

Samuel disse...

É, por assim dizer, uma estreia em falso. O Steinbeck que ficou para a posterioridade, aquele a quem não se reconhece o humor mas a simpatia pela ordem social alicerçada nos laços familiares, no trabalho e no respeito do Homem para com a Natureza, começaria no livro seguinte, Pastagens do céu.