sexta-feira, 4 de abril de 2008

Where they’ve come for fun and sun

Praia da Légua

Praia da Légua

Praia da Légua

Praia da Légua

Praia da Légua

…while muslims stick up Washington.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A América e os americanos

John Cheever, Falconer

Em entrevista a Robert G. Collins, John Cheever afirmou que se sobre Falconer havia recaído algum do imaginário yeatsiano era porque «ninguém conseguia escrever bem sem ter Yeats no pensamento». No entanto, a profundidade da marca yeatsiana era farta, mais farta do que Cheever estava disposto a admitir. O poema The second coming («Turning and turning in the widening gyre / The falcon cannot hear the falconer…») era a chave. Não só carregava textualmente o nome do romance de Cheever como se espraiava num discurso provido do mesmo tom apocalíptico: a Humanidade que, levada pela soberba, tenta ascender a um lugar superior na cadeia mística, destruindo dessa forma o natural equilíbrio das coisas e, consequentemente, destruindo-se a si própria. Contudo, enquanto William Butler Yeats invocava directamente a Humanidade pelo seu todo, Cheever produzia aquilo a que A.M. Homes classificaria como «um espantoso exemplo de transformação do estritamente pessoal no profundamente público». Ou seja, no romance de Cheever o apelo é feito ao indivíduo enquanto parte simbólica do colectivo. Ezekiel Farragut, um professor condenado à prisão pelo crime de fratricídio, mais do que qualquer outra personagem, representa esse ser caído, confundindo-se por vezes com o próprio autor que, percebendo a desgraça enquanto algo que apenas o é verdadeiramente quando vivido na primeira pessoa, a dotou com alguma da sua própria história: o sentimento de rejeição proveniente de uma história familiar segundo a qual o pai havia, aquando da gestação do escritor, convidado um médico para jantar a fim de acertar os pormenores de um aborto (este acontecimento havia já aparecido em The wapshot chronicle); o empobrecimento da família e a consequente tomada das rédeas financeiras por parte da sua mãe («aquela mulher a servir na bomba de gasolina num casaco de ir à ópera»); a relação conturbada com o irmão, a dualidade do ser humano retratada na disparidade existente entre um lado social honrado e a corrupção interna (Farragut é, como já referimos, preso pelo assassinato do irmão; Eben, irmão de Farragut, é descrito da seguinte forma: «Achava a maior parte dos criados, barmen e empregados impertinentes e ir almoçar com ele acabava sempre numa cena. […] aos sábados de manhã lia para os cegos na Twin Brooks Nursing Home»); a homossexualidade ou o «estar apaixonado por si próprio» (o tema foi uma quase constante na produção de Cheever: a homossexualidade estereotipada em Clancy in the Tower of Babel; a sua apreensão face à homossexualidade em The wapshot chronicle; e, por fim, a aceitação da sua orientação bissexual em The leaves, the lion-fish, and the bear e Oh what a paradise it seems); e a dependência de drogas. Porém, se a força resultante da aproximação entre o realidade e a ficção é inquestionável – e dela muito beneficia a obra no que à verosimilhança diz respeito –, o cenário escolhido por Cheever não terá menor importância. Com efeito, o estabelecimento prisional de Falconer oferece à narrativa uma maior abrangência espacial do que à primeira vista se nos afigura. A enumeração das várias designações do estabelecimento prisional («Por cima do brasão havia uma declinação dos nomes do lugar: Cadeia de Falconer 1871, Reformatório de Falconer, Penitenciária Federal de Falconer, Prisão Estadual de Falconer, Estabelecimento Correccional de Falconer, e o último, que nunca pegara: Casa da Aurora») é, pela descontinuação destas, uma desconsideração pelas próprias fronteiras da prisão. A acção desenrola-se pois na América, expõe a América, denuncia a América; toma partido pelos americanos de quinta categoria – da categoria F («F de fodidos, foleiros, fuinhas, fressureiros, fanchonos, fatochas […], fantasmas, fofos, fanáticos, fanados, fininhos») –, os mesmos que sonham com melhores dias, mas que, no fundo, desconhecem o exacto significado daquilo com que sonham. Porque não é apenas a esperança que se perde em Falconer; perde-se também a memória do tempo em que a palavra ‘esperança’ ainda tinha algum valor semântico.


Referência bibliográfica:
John Cheever, Falconer. Lisboa: Sextante Editora, 1.ª edição, Setembro de2007, 207 pp. (tradução de José Lima; obra original: Falconer, 1977).

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Despejar o saco: 2007 em livros

E quando já ninguém o esperava (notar a simulação do sucesso deste blogue), aqui fica a lista dos melhores livros, e de outras coisas que também dão pelo mesmo nome, que por aqui passaram em 2007.
Ao contrário das listas de discos, as listas de livros possuem, estou em querer, um carácter mais definitivo – formam-se discretamente ao longo do ano. Talvez por essa razão não tenha tido grandes dúvidas aquando da ordenação desta lista, ou tão pouco tenha sentido grandes urgências de última hora por me ter esquecido de algum título. Não, está tudo aqui.

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Livros de 2007*:

Despejar o saco: 2007 em livros 1
01. Lev Tolstoi, A sonata de Kreutzer (Relógio D'Água);
02. Jonathan Littell, As benevolentes (Dom Quixote);
03. Ivan Turguéniev, Pais e filhos (Relógio D'Água);
04. Cormac McCarthy, A estrada (Relógio D'Água);
05. Cormac McCarthy, Este país não é para velhos (Relógio D'Água);
06. Philip Roth, Todo-o-Mundo (Dom Quixote);
07. Gustave Flaubert, Salammbô (Relógio D'Água);

 Despejar o saco: 2007 em livros 2
08. John Updike, Corre, Coelho (Civilização);
09. Don DeLillo, O homem em queda (Sextante);
10. John Updike, Procurai a minha face (Civilização);
11. Alexandra Lucas Coelho, Oriente próximo (Relógio D'Água);
12. Sam Harris, O fim da fé (Tinta da China);
13. Woody Allen, Pura anarquia (Gradiva).

À parte (***):

 Despejar o saco: 2007 em livros 3
- António Lobo Antunes, O meu nome é Legião (Dom Quixote);
- Bob Dylan, Tarântula (Quasi).

Outras leituras (e releituras)*:

 Despejar o saco: 2007 em livros 4
01. Vladimir Nabokov, O dom (Assírio & Alvim, 2004);
02. Philip Roth, Pastoral americana (Dom Quixote, 1999);
03. William Faulkner, Absalão, Absalão (Dom Quixote, 1992);
04. Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel (Antígona, 2003);
05. Ernest Hemingway, O velho e o mar (Livros do Brasil, 2006);
06. Fiódor Dostoiévski, Noites brancas (Assírio & Alvim, 2001);
07. Philip Roth, Teatro de Sabbath (Dom Quixote, 2000);
08. Jack Kerouac, Pela estrada fora (Relógio D'Água, 1998);
09. Philip Roth, O animal moribundo (Dom Quixote, 2006);

 Despejar o saco: 2007 em livros 5
10. John Updike, O terrorista (Civilização, 2006);
11. José Saramago, As pequenas memórias (Caminho, 2006);
12. Isidore Ducase, Os cantos de Maldoror (Quasi, 2004);
13. Haruki Murakami, Norwegian wood (Civilização, 2004);
14. Khaled Hosseini, The kite runner (Riverhead, 2003**).

À parte (***):

 Despejar o saco: 2007 em livros 6
Anne Enright, O prazer de Eliza Lynch (Teorema, 2004).

* Segundo a data de edição ou reedição em Portugal, excepto em **.
*** Ordem alfabética por autor.