sábado, 20 de setembro de 2008

Um Verão tardio

Um Verão tardio

Pus a cama perto da piscina, e fiquei a tomar banho até tarde. Impossível dormir. Dois a três minutos cá fora bastavam para transformar em suor a água que me devia proteger do calor imenso. (1) A garrafa de whisky – a segunda da tarde – era agora constantemente solicitada por todos os presentes (…). Apetecia-me sair e caminhar para leste, na direcção do parque, à luz suave do crepúsculo (…) O céu de verão já escurecera os telhados dos restaurantes à beira da estrada e a frontaria das garagens, diante das quais as bombas de gasolina vermelhas, novinhas em folha, sobressaíam no meio de charcos de luz. (2)
As saudades do melhor dos tempos de rapaz (…) que cavalgava as ondas lá desde o ponto em que começavam a formar-se, as cavalgava com os braços esticados como a ponta de uma flecha e o resto do corpo magro atrás como a haste da flecha, as cavalgava até ir roçar com as costelas pelos minúsculos seixos pontiagudos, bivalves enterrados e conchas pulverizadas que se acumulavam na orla da praia, para rapidamente se pôr em pé e voltar para trás, avançando a pé pelo mar até ter água pelos joelhos, o suficiente para mergulhar e nadar freneticamente ao encontro das ondas em formação, ao encontro do Atlântico verde e impante, que rolava imparavelmente na sua direcção como o facto obstinado do futuro – e, se tivesse sorte, chegar lá a tempo de apanhar a próxima onda grande e depois a seguinte e a seguinte e a seguinte até que pela inclinação da luz do Sol que brilhava na água sabia que estava na hora de voltar para casa. Corria para casa descalço, com os pés molhados e salgados, a lembrar-lhe da impetuosidade daquele mar imenso pela água que lhe enchia os dois ouvidos e a lamber o antebraço para sentir o sabor da pele molhada pelo oceano e tostada pelo sol. (3)

1. Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel
2. F. Scott Fitzgerald, O grande Gatsby
3. Philip Roth, Todo-o-Mundo

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Um regresso há muito aguardado

John Updike, Regressa, Coelho

Iniciei a leitura de Regressa, Coelho, de John Updike, e logo, no princípio do segundo parágrafo, dei de caras com isto: «Um homem e o seu filho – Earl Angstrom e Harry – encontram-se entre os tipógrafos que saem do trabalho.»
Para quem, como eu, leu com bastante prazer o primeiro volume da tetralogia Coelho, Corre, Coelho, não deixa de ser com um encanto quase infantil que torna à história de Harry Angstrom e se depara com tamanha revelação. Entender-me-ão esses.

Alienantes e alienados

Fiódor Dostoiévski, Demónios

Primeira redundância: um livro começa-se a ler pela capa, pelo nome nela inscrito. Segunda redundância: a ou as epígrafes são chamadas de atenção por parte do autor que, não raramente, apontam para um certo entendimento da obra: o primário, aquele que estava na mente do escritor aquando da redacção; ou o preponderante, aquele que a determinada altura acabou por impor-se.
Em Demónios, obra que se encontra entre os melhores escritos de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), e que agora foi publicada pela Presença, ambas as redundâncias atrás enunciadas adquirem uma importância invulgar. As suas duas epígrafes, uma tirada do poema Demónios, de Púchkin, e a outra do Evangelho segundo S. Lucas (VIII, 32-37), a qual relata como Jesus Cristo transferiu os demónios de um homem para «uma vara de muitos porcos» que Lhe rogaram «que lhes concedesse entrar neles», são autênticas miniaturas à escala da obra que se lhes segue. E, claro, por tão bem traçarem as coordenadas da obra acabam por também limitar o seu entendimento, o que acaba por ser de alguma valia quando estamos, como agora, perante uma tradução.
A esse respeito, e começando por onde sempre se começa, a presente tradução de Demónios logo se faz notar pelo título escolhido. Com efeito, Nina Guerra e Filipe Guerra, ao invés de optarem pelo habitual Possessos, entenderam ser Demónios o título que mais se adequava à presente tradução, quer por causa das epígrafes, como por ser a tradução literal do original Béssi. Era, pois, vontade de Dostoiévski colocar a tónica nos demónios; os demónios que outrora haviam sido possessos e que agora se tornavam eles mesmos possuidores.
Aqui, e ao contrário do que costuma acontecer no catálogo dostoiévskiano, não vemos em Demónios a figura do pecador à procura de redenção. Em vez disso é-nos narrada, por uma personagem menor, a história de como um homem nega o arrependimento e, simultaneamente, chama para junto de si, para a sua causa, outros que, esses sim, se tornam possessos.
Era claro para Dostoiévski que a Rússia do século XIX atravessava um momento de viragem: sob a acusação de traição, o estudante Maxim Ivanov havia sido assassinado por um grupo às ordens do líder niilista Sergei Netchaiev que, juntamente com Mikhail Bakhunin, escreveria uma espécie de guia prático do terrorismo, o Catecismo do revolucionário. Contudo, o escritor desconhecia que este seu alerta para o estado das coisas ganharia, com o passar dos anos, a condição de profecia.
Iniciando-se calma mas tensamente com a relação de mútuo interesse entre Stepan Trofímovitch Verkhovênski, um professor desacreditado nos círculos eruditos de Moscovo, e Varvara, uma aristocrata que procura em Verkhovênski algum do seu emulado requinte intelectual, o enredo de Demónios logo se adensa com a entrada em cena de Nikolai Vsevolodovitch Stavróguin, filho de Varvara e antigo aluno de Verkhovênski.
Regressado a casa, à província, depois de uma viagem pela Europa e de uma longa permanência em Moscovo, Nikolai torna-se no centro das atenções. Primeiro devido à sua pose de pessoa viajada, vivida, depois por causa de um acontecimento que lança o leitor directamente na trama de Demónios: Nikolai expressa todo o seu desrespeito em relação àquilo a que Tolstoi chama, em A morte de Ivan Ilitch, de «comme il faut», ou seja, em relação aos valores sociais tidos como lei que a todos toca, ao morder a orelha do governador de Skvoréchniki.
Dá-se assim seguimento às palavras de Ivan Karamazov, em Os irmãos Karamazov: «se Deus não existe, tudo é permitido.» Toda a ânsia pela salvação sentida por Ivan Karamazov, mas também por Raskólnikov, em Crime e castigo, se transforma numa espécie de crença naquilo que é imutável: a própria mudança.
Quando, em 1872, Dostoiévski publicou Demónios essa mudança era evidente: a ascensão dos revolucionários niilistas e do socialismo ateu, e a queda dos valores morais, levaram o escritor a encher inúmeras páginas do periódico O mensageiro russo com aquilo a que Filipe Guerra classificou como sendo “uma crítica a todas as ideologias, considerando que elas pretendem ultrapassar a condição humana”, e “uma obra aberta e, mais importante ainda, premonitória no que respeita às grandes derivas totalitárias do século XX, à semelhança das obras de Nietzsche”.

Referência bibliográfica:
Fiódor Dostoiévski, Demónios. Lisboa: Editorial Presença, 1.ª edição, Março de 2008, 664 pp. (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Béssi, 1872).

sábado, 13 de setembro de 2008

Yikes

Assim se lê na edição on-line do New York Times: «OK, this one is oh so juicy in so many ways. Imagine you’re the young man. Not only did you get Bristol pregnant, but her Mom, Sarah Palin, is the governor of Alaska. And not only that, but McCain just picked Mom to run as his VP. And not only that, but McCain and Palin have just said on national TV that Bristol is marrying you! Can you say shotgun wedding? The only thing missing is Dick Cheney, actual VP, with the actual shotgun. Please don’t tell him.»

domingo, 17 de agosto de 2008

Suzanne VegaJoni Mitchell
Antes e depois #3:
- Suzanne Vega;
- Joni Mitchell.

sábado, 16 de agosto de 2008

Brian Eno, Here come the warm jetsAl di Meola, CasinoCat Power
Antes e depois #2:
- Brian Eno, Here come the warm jets (Island, 1973);
- Al di Meola, Casino (Columbia, 1978);
- Cat Power.