sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Coelho acelera

John Updike, Coelho enriquece

Ainda há dias relatava aqui o prazer que me estava a dar a leitura do segundo tomo da tetralogia Coelho, de John Updike. Era, porém, um gosto agridoce: uma série que nos cai no goto, como esta o faz, não permite que descanso algum se nos abeire enquanto não lhe vislumbrarmos o fim. E, a julgar pelo tempo que entremeou as datas de edição do primeiro e segundo volumes, essa era uma empresa que ainda tardaria mais um ano até que pudesse chegar à próxima etapa, o volume Coelho enriquece que, alegremente, encontrei hoje em deambulação por uma Fnac.

Plano

A tua pele carrega uma vontade que se fortalece ao meu toque. Não é uma pele como as outras: parece controlar-te o corpo, mover na minha direcção a tua carne que logo se me molda, ao pouco que lhe posso dar, mas que de bom grado tornarei a oferecer outra vez.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cardoso Pires numa televisão perto de si

José Cardoso Pires

Amanhã, pelas 23h30, haverá José Cardoso Pires na RTP2: «Este documentário aborda aspectos da vida e obra do escritor José Cardoso Pires, dados por ele próprio em entrevistas conduzidas por Clara Ferreira Alves durante o Outono e Inverno de 1997 e em depoimentos de algumas das pessoas que melhor o conhecem e lhe são próximas.»

Sonho de uma noite de Verão

Joni Mitchell

Assim: um pé e depois o outro, ambos nus, sobre uma rocha que, de quando em quando, recebia as ondas de um mar cuja imensidão o seu olhar media. Atrás de si, as roseiras bravas. O cheiro doce que delas emanava confundia-se com o eterno desdobrar das ondas, com um sol de final de tarde, com a aragem própria de um Setembro ainda recente. Alongou mais uma vez os olhos pelo mar e notou que estava só. Viu ao longe uma família de focas a desenhar-se contra o céu, acima das águas, desaparecendo pouco depois e ressurgindo adiante. Reconheceu então que uma mulher nunca está só quando olha o mar.
Inquietou-se depois perante a ideia de que teria algo para fazer; não a casa que estava limpa, e também tinha comida no frigorífico suficiente para uma semana. Deixou-se ficar. Não havia nada nem ninguém à sua espera. Partiu quando já só uma réstia de dourado planava sobre as águas, apercebendo-se apenas no caminho de casa do real fundamento da sua inquietação: não sabia o que fazer até à chegada da hora em que o cansaço a levaria a procurar a cama. Não voltaria a rever os filmes antigos que a tinham acompanhado durante os nove anos que entretanto haviam passado sobre a edição de Taming the tiger, e tão pouco esperava encontrar conforto nos livros que conhecia de cor. Encontrava-se sozinha; Chaplin e Bergman haviam levado Kipling e Yeats a tomar um copo. Sentou-se por isso ao piano. Os seus dedos principiaram a arrancar dele padrões que exprimiam na perfeição aquele final de tarde. E porque nada mais tinha com que se inquietar (- A casa está limpa, e tenho comida no frigorifico suficiente para uma semana), decidiu prosseguir. Nasceram ao todo sete padrões diferentes, um para cada dia da semana, aos quais chamou de “One week last Summer”. Deve ter fumado um cigarro a seguir. Havia terminado a parte ‘durante os nove anos que entretanto haviam passado’.
Provavelmente não o sabia ainda. O contar dos dias era longo e Joni Mitchell havia anunciado a sua irrevogável saída de cena com a compilação Travelogue (2002). No entanto, quando recebeu um telefonema de Jean Grand-Maitre, director artístico do Ballet de Alberta, era quase certo que as possibilidades se haviam tornado em génese. Sabia-o agora. Grand-Maitre falou-lhe da eventual realização de Dancing Joni (mais tarde rebaptizado de The fiddle and the drum), um bailado que teria por base algumas das suas canções. Joni gostou da ideia e subiu a parada: não era apenas às canções que iria regressar; ocupar-se-ia também da mise en scène. Pegou para isso em algumas telas que tinha planeado expor em breve e juntou-lhe duas canções: “If” e “If Had a Heart I'd Cry”. Shine era agora uma evidência.
Seguiu-se a materialização. Editado no passado mês de Setembro, Shine marca o regresso de Mitchell às inquietações político-sociais – largamente evidenciadas no álbum Dog eat dog (1985), e em canções como “Turbulent indigo” (Turbulent indigo, 1994), “Banquet” (For the roses, 1972) e “The fiddle and the drum" (Clouds, 1969) –, que agora se vêem assentes em frases musicais onde a forma é quase inexistente, e onde a voz, profunda, se acha num misto de ira e esperança. Por vezes, as melodias não são mais do que panos de fundo sobre os quais proliferam palavras que se desdobram entre o real e o imaginário, obrigando o ouvinte a ligar os pontos entre sugestão e realidade. “This place”, por exemplo, parece lidar com a história de um urso que, uma vez por outra, ronda a sua casa, uma imagem que poderia servir de reforço a “One week last Summer”, quando na realidade nos remete para a diminuição dos habitats naturais; a balada “Strong and wrong" poder-se-ia, num primeiríssimo contacto, encaixar na veia romântica pela qual Mitchell é mais conhecida, porém, frases como «Onward Christian soldiers...» logo se apressam a encaminhar o ouvinte para a religião enquanto fomentadora da guerra, para a troca do amor espiritual e romântico por outras grandezas – assim se afiguram a Mitchell – menos laudáveis.
Ao enveredar por esse desdobramento, Mitchell parece querer instigar o ouvinte à participação cívica mas, a forma como o faz limita consideravelmente o impacto da mensagem. As letras raramente saem do registo panfletário – “If”, cujo texto se serve de um poema de Rudyard Kipling, é a grande excepção – e existe uma separação demasiado radical entre conceitos tão difusos como difusa – e confusa – é a percepção colectiva das fronteiras entre o “Bem” e o “Mal” – talvez porque nada tenha sido sentido de uma maneira impessoal ‘durante os nove anos que entretanto haviam passado’; talvez porque a parte jamais poderá julgar o todo. Assim, o que era verdade – entendemo-lo nós – para canções que abordavam, não as largas avenidas, mas as lúgubres esquinas do amor romântico, deixa de o ser quando o objecto retratado extravasa as fronteiras do pessoal. Perdoar-se-ia, contudo, este passo pejado de ingenuidade – são coisas que se perdoam a quem, talvez ainda embutido do espírito da década de sessenta, conserva os sonhos da juventude –, não fosse a qualidade destes textos ser manifestamente inferior à dos textos incluídos nos álbuns anteriores. Neste ponto, Shine é, de facto, um rude golpe para quem até agora seguia a velha máxima que dizia que os álbuns de Mitchell se lêem primeiro e ouvem depois.
Resta-nos, em jeito de consolo, o brilhantismo dos temas “One week last Summer”e “Night of the iguana”; o momento em suspenso que é “Shine”, a audácia de “Hana” (talvez o momento esteticamente mais próximo de Dog eat dog) e a certeza de que uma Joni Mitchell em baixo de forma continua, ainda assim, a situar-se muito para além dos seus pares.

Joni Mitchell, Shine
Joni Mitchell, Shine (Hear Music, 2007)
Escrito em 2007 para o
Bodyspace.

Música em imagens II

Segunda parte de uma lista pictórica que reúne as minhas capas de discos favoritas. Algumas encerram discos soberbos; outras nem por isso.

Coldplay, A rush of blood to the head (2002)Coldplay, X & Y (2005)Comus, First utterance (1971)
Cream, Disraeli gears (1967)The Datsuns, Smoke and mirrors (2006)The Dave Brubeck Quartet, Time out (1959)Dave Douglas Quartet, Leap of faith (1999)
Dave Matthews Band, Before these crowded streets (1998)David Bowie, The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (1972)David Bowie, Aladdin Sane (1973)David Bowie, Low (1977)
David Bowie, Heroes (1977)David Bowie, Tonight (1984)David Sylvian, Secrets of the beehive (1987)The Dead 60's, The Dead 60's (2005)
Dead Can Dance, Dead Can Dance (1984)Dead Can Dance, The serpent's egg (1988)Dead Can Dance, Aion (1990)Dead Can Dance, Into the labyrinth (1993)
Death from above 1979, You're a woman, I'm a machine (2004)Depeche Mode, A broken frame (1982)Depeche Mode, 101 (1989)Depeche Mode, The Singles 81/85 (1998)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

As diferentes faces de um mesmo jogo

José Donoso, Casa de campo

Tudo se apresentava como sempre fora. Marulanda, a casa senhorial dos Ventura y Ventura, continuava a impor-se na paisagem enquanto única infracção ao carácter plano desta. Havia ainda a descontinuação que se fazia anunciar primeiramente na vedação constituída por lanças com pontas de ouro e depois no tamanho da própria casa, com as suas inúmeras divisões, uma delas dotada de um enorme fresco ‘trompe l’oeil’ onde o onírico e o real se misturavam quais diferentes faces de um mesmo absoluto. Esta descontinuação demarcava, ou pretendia demarcar, a fronteira entre tudo aquilo que era sujo, mau, inferior e exterior, e tudo aquilo que, durante os três meses de Verão que a família (uma matriarca, seis casais e um total de trinta e cinco filhos, primos e irmãos) lá passava, se coadunava com a sua posição social. Porém, por debaixo desta imensa casa e do enorme poder detido pelos Ventura y Ventura, “donos de uma província inteira”, estava o ouro comprado aos nativos, claramente de condição inferior, sujos e alegadamente antropófagos, armazenado numa pequena e mal iluminada cripta. Por debaixo das convenções estava um descomedimento de decadência e depravação que cedo tomava forma na brincadeira burlesca levada a cabo pelas crianças a que José Donoso, enquanto autor e narrador, e levando em consideração a afirmação de Paul Valéry que dizia ser incapaz de escrever um livro com uma frase do tipo “A marquesa saiu às cinco”, denominou de, nem mais, “A marquesa saiu às cinco”. Somavam-se-lhe os roubos, as traições, a pequena intriga. Os lacaios, que eram substituídos todos os anos, eram o braço armado: repreendiam, humilhavam e abusavam sexualmente das crianças que incorriam num qualquer incumprimento, fazendo-o sem contudo deixar marcas que levassem os patrões a tomar medidas e, nesse caso, a subverter o bom funcionamento da casa.
Nesse Verão, porém, a tradição seria quebrada: os Ventura y Ventura, acompanhados dos seus lacaios, decidem fazer um passeio a um local edénico deixando para trás as crianças que ficam entregues a si mesmas durante um dia. Estas, crendo que os adultos não mais voltarão, logo se iniciam em actos vertiginosos como o sejam o roubar do ouro da família, o alagar das lanças da vedação ou o transfigurar-se com a ajuda dos vestidos e perfumes dos pais.
José Donoso, sempre enquanto autor e narrador, instala assim o clima que pretende usar como metáfora para um Chile sob a ditadura de Augusto Pinochet. O absoluto faz-se directamente pela crónica daquele Verão na vida dos Ventura y Ventura e indirectamente pela alegoria ao panorama social e político do Chile nos anos ’70. Contudo, este romance de Donoso é ainda sobre a escrita de romances e as convenções que tendem a conduzir ao mimetismo literário. Neste ponto não raras as vezes em que o autor e narrador se auto-impõe na história enquanto figura omnipotente: «Por esta altura da minha narração, os meus leitores estarão talvez a pensar que não é de ‘bom gosto’ literário que o autor puxe, a cada instante, a manga de quem lê para lhe recordar a sua presença, semeando o texto com comentários que não passam de relatórios sobre o discurso do tempo ou a alteração de cenografia» (p.47); «Os meu leitores estarão a perguntar-se qual seria o segredo que produziu esta ruptura entre irmãos e a acusar o escritor de utilizar a desacreditada artimanha de reter informação com o fim de aguçar a curiosidade do leitor» (p.92). Ao fazê-lo, Donoso justapõe as técnicas realistas e pós-modernas: a discrepância entre a arte e a realidade, o artifício que serve para retratar a real. A ficção admite que as convenções, aceites como tal, dêem origem a outras histórias paralelas à dos Ventura y Ventura, enquanto a estrutura motiva o interesse pelo jogo que Donoso nos propõe: um jogo onde, sabemos de antemão, é ele quem dá as cartas e ditas as regras.

Referência bibliográfica:
José Donoso, Casa de campo. Lisboa: Cavalo de ferro, 1.ª edição, Março de 2008, 440 pp. (tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu; obra original: Casa de campo, 1979).