Certa
noite foi-me solicitada uma explicação sobre o que seria afinal o amor
platónico. Expliquei que tudo tinha começado há muitos, muito anos, numa tarde
em que Platão não andava, como era seu hábito, a desvirtuar rapazinhos, e que
tinha acabado na manhã em que Goethe matou o jovem Werther.
terça-feira, 1 de junho de 2010
And
then I felt sad because I realized that once people are broken in certain ways,
they can't ever be fixed, and this is something nobody ever tells you when you
are young and it never fails to surprise you as you grow older as you see the
people in your life break one by one. You wonder when your turn is going to be,
or if it's already happened.
Douglas
Coupland, Life after God
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Storia di alcuni minuti 5
"Desordem (Molto vivace, Vigoroso, Molto ritmico)"
Idil Biret: György Ligeti, Estudos, Livro 1 (Composição: 1985)
Nascido em 1923, György Ligeti apenas entrou em real contacto com a vanguarda musical europeia em 1956, quando, foragido de uma Hungria ocupada pelo exército soviético, se refugiou em Viena.
Até aí o único contacto que tinha com aquilo que ia sendo musicalmente conquistado além fronteiras, recebia-o a partir de um pequeno transístor que ouvia clandestinamente; agora, porém, frequentava o estúdio electrónico da Westdeuscher Rundfunk, onde também se encontravam Pierre Boulez, Luciano Berio, Mauricio Kagel e Karlheinz Stockhausen.
Aí, influenciado pelos seus colegas, mas sobretudo incentivado pela disponibilidade de meios, Ligeti desenvolveria o seu estilo híbrido no qual sons harmónicos, pentatonismo, heptatonismo e outros acordes temperados e não temperados são fundidos de forma a criarem uma linguagem musical que não obedece a um princípio geral, e onde existe espaço, até, para influências vindas do jazz e da música sul-americana.
Essa permeabilidade está, por exemplo, bem patente nos seus dois livros de estudos para piano. Escritos originalmente para piano mecânico, abrem espaço a uma reflexão sobre a música na qual o compositor não deve temer desrespeitar as suas próprias regras. Nas palavras de Ligeti: «A música não deve ter uma coerência absoluta. Mesmo uma fuga de Bach é uma construção cuja lógica é apenas aparente.»
Num dos meus estudos favoritos, “Desordem”, essas regras são engenhosamente postas em causa, à medida que a construção da massa sonora se vai fazendo com o executante a dar a impressão de que está a tocar linhas melódicas a mais de duas velocidades distintas, o que, na prática, faz deste um exercício onde dificilmente encontraremos uma estrutura identificável.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
Atravessar
a pradaria e descer o rio, escalar a montanha, sentir as pedras ásperas e
escaldadas nas mãos feridas, do cume olhar para o vale, para os pastores e os rebanhos
e as tendas dos nómadas, os cento e cinquenta cavalos, os bancos de areia
branca, em torno de Damavand flutuam nuvens leves (ou fumo), o sono e o calor
dos sonhos, e ao fim do dia correr o rio a vau e lançar as canas de pesca. Era
isto, a vida!
O
que foi que mudou desde então? Erguemos devagar a mão a cerramos o punho.
Impossível cerrar o punho. O gesto é fraco, choco, e nas costas, nos joelhos,
na nuca sentimos já a terrível prostração da acédia, uma doença pior que a
malária. As mãos estão húmidas, falar é um esforço desmedido. Levanta-te e
caminha! O coração bate depressa, e seguimos pela margem do rio mais depressa
ainda, para não cedermos à tentação de nos atirarmos ao chão e chorarmos de
cansaço e desespero. Ah, aqui não se chora. É pior, muito pior. Aqui estamos
sós.
Annemarie
Schwarzenbach, Morte na Pérsia
(Tinta-da-china, 2008)
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Storia di alcuni minuti 4
“Milestones”
Miles Davis, Milestones (1958)
No final da década de ’50 foram vários os músicos de jazz que começaram, na sua escrita, a preferir os modos às progressões de acordes. Nascia assim o jazz modal, tipologia na qual se inscreveriam obras lapidares como Moon beams (1962) e Time remembered (1963), de Bill Evans; Country preacher (1969), de Cannonball Adderley; Straight life (1966), de Freddie Hubbard; New York, NY (1959), de George Russell (o inventor do género, cuja influência se fez sentir em muitos dos músicos que, à altura, por ele eram dirigidos; editou, em 1953, a bíblia do género: The lydian cromatic concept of tonal organization); Empryean isles (1964) e Maiden voyage (1965), de Herbie Hancock; A love supreme (1964), de John Coltrane; The real McCoy (1967), de McCoy Tyner; e, finalmente, Milestones (1958) e Kind of blue (1959), de Miles Davis.
“Milestones”, o tema, inicialmente intitulado “Miles” de forma a não ser confundido com uma composição homónima assinada por John Lewis em 1947, embora não constituísse ainda, dentro da carreira de Miles, o apogeu do jazz modal, que arrisco a apontar para o tema “So what”, fazia já prever aquilo que daí um ano o trompetista iria desenvolver. E, claro, há um Coltrane a soltar-se.
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