segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pois é, estás a ver como sou bonzinho, mamã. Não consigo fumar, quase não bebo, nada de drogas, não peço dinheiro emprestado nem jogo às cartas, não sou capaz de dizer uma mentira sem começar a suar como se estivesse a passar o equador. É verdade que digo muitas vezes foda-se, mas garanto-te que os meus êxitos no domínio da transgressão se resumem mais ou menos a isso.

Philip Roth, O complexo de Portnoy (Dom Quixote, 2010)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

JACK: I am sick to death of cleverness. Everybody is clever nowadays. You can’t go anywhere without meeting clever people. The thing has become an absolute public nuisance. I wish to goodness we had a few fools left.
ALGERNON: We have.
JACK: I should extremely like to meet them. What do they talk about?
ALGERNON: The fools? Oh! about the clever people, of course.
JACK: What fools!

Oscar Wilde, The importance of being earnest

domingo, 28 de novembro de 2010

2010 em discos

Não constitui novidade para ninguém: há muito que a indústria discográfica possui morte anunciada e, face às cada vez mais magras receitas, é normal que as grandes companhias discográficas se juntem às pequenas na aposta em projectos mais baratos. Este tendência, castradora, de início, no que respeita à edição, cria uma bola de neve: aquele punhado de álbuns escolhidos todos os anos pelos órgãos do costume, massificam a tendência e, com isso, despoletam o aparecimento de novos projectos com determinadas características, ao passo que empurram para o canto outros que as não reúnem.
Junte-se a isto a predominância de alguns produtores e a velocidade com que tudo isto circula pelo mundo inteiro através de várias ferramentas, que na Internet são disponibilizadas gratuitamente, e chegamos à situação actual, em que considero fazer mais sentido uma simples ordenação qualitativa daquilo que ouvi (dividida em grupos, pois se alguns discos são ela por ela, outros há que muito distam entre si), ao invés de uma lista dos melhores álbuns do ano.


A001. Swans, My father will guide me up a rope to the sky (Young God);
A002. Holy Fuck, Latin (XL);
A003. Motorpsycho, Heavy metal fruit (Rune Grammofon);
A004. Robert Wyatt/Gilad Atzmon/Ros Stephen, For the ghosts within (Domino);
A005. Kevin Eubanks, Zen food (Mack Avenue);
A006. Wolfgang Mitterer, Massacre (Col Legno);
A007. Grigoryan Brothers, Distance (Material Label);
A008. Esperanza Spalding, Chamber Music Society (Telarc);
A009. The Black Keys, Brothers (Nonesuch);
A010. Neil Young, Le noise (Reprise);
A011. Vampire Weekend, Contra (XL);
A012. The Chieftains featuring Ry Cooder, San Patricio (Hear Music);
A013. Secret Quartet, Bloor Street (Edition);
A014. Dylan LeBlanc, Paupers field (Rough Trade);
A015. Mumford & Sons, Sigh no more (Universal);
A016. Jaga Jazzist, One-armed bandit (Universal);
A017. Janelle Monae, The ArchAndroid (Bad Boy);
A018. Laura Marling, I speak because I can (Astralwerks);
A019. Arcade Fire, The suburbs (Mercury);
A020. Pat Metheny, Orchestrion (Nonesuch);
A021. Tame Impala, Innerspeaker (Modular);
A022. Gil Scott-Heron, I'm new here (XL);
A023. Brad Mehldau, Highway rider (Nonesuch);
A024. Brian Wilson, Brian Wilson reimagines Gershin (Disney);
A025. The Fall, Your future our clutter (Domino);
A026. Liars, Sisterworld (Mute);
A027. Laurie Anderson, Homeland (Nonesuch);
A028. Sleigh Bells, Treats (Mom & Pop);
A029. Eliza Carthy & Norma Waterson, Gift (Topic);
A030. Patty Griffin, Downtown church (Credential Recordings);
A031. The Dead Weather, Sea of cowards (Third Man);
A032. Robert Plant, Band of joy (Decca);
A033. John Legend & The Roots, Wake up! (Sony);
A034. Richard Thompson, Dream attic (Beeswing);
A035. Spock's Beard, X (Brainforest);
A036. Bryan Ferry, Olympia (Virgin);
A037. Best Coast, Crazy for you (Wichita);
A038. The Roots, How I got over (Def Jam);
A039. My Brother The Wind, Twilight in the crystal cabinet (Transubstans);
A040. AfroCubism, AfroCubism (World Circuit);


B041. Paul Motian, Lost in a dream (ECM);
B042. Dave Rawlings Machine, A friend of a friend (Acony);
B043. Owen Pallett, Heartland (Domino);
B044. Menomena, Mines (Barsuk);
B045. Max Richter, Infra (Fat Cat);
B046. The Chemical Brothers, Further (Astralwerks);
B047. Gayngs, Relayted (Jagjaguwar);
B048. LCD Soundsystem, This is happening (DFA);
B049. Joanna Newsom, Have on me (Drag City);
B050. Deerhunter, Halcyon Digest (4AD);
B051. Big Boi, Sir Lucious Left Foot...The son of Chico Dusty (Def Jam);
B052. The Divine Comedy, Bang goes the knighthood (Divine Comedy);


C053. The Foreign Exchange, Authenticity (The Foreign Exchange Music);
C054. The National, High violet (4AD);
C055. Beach House, Teen dream (Bella Union);
C056. Matthew Dear, Black City (Ghostly);
C057. Maps & Atlases, Perch patchwork (Barsuk);
C058. The Futureheads, The chaos (Dovecote);
C059. Stone Temple Pilots, Stone Temple Pilots (Atlantic);
C060. Linda Martini, Casa ocupada (Rastilho);
C061. Devo, Something for everybody (Warner Bros.);
C062. Tiago Guillul, V (Flor Caveira);
C063. Caitlin Rose, Own side now (Names);
C064. Shit Robot, From the cradle to the rave (DFA);
C065. Pantha Du Prince, Black noise (Rough Trade);


D066. Carolina Chocolate Drops, Genuine Negro Jig (Nonesuch);
D067. John Ellis & Double-Wide, Puppet mischief (Obliqsound);
D068. Hot Chip, One life stand (EMI);
D069. Caribou, Swim (Merge);
D070. Black Tusk, Taste the sin (Relapse);
D071. Broken Bells, Broken Bells (Sony);
D072. Ariel Pink's Haunted Graffiti, Before today (4AD);
D073. Twin Shadow, Forget (4AD);
D074. Elephant9, Walk the Nile (Rune Grammofon);
D075. Fang Island, Fang Island (Sargent House);
D076. The Walkmen, Lisbon (Fat Possum);
D077. Jamey Johnson, The guitar song (Mercury);


E078. MGMT, Congratulations (Columbia);
E079. The Sword, Warp riders (Kemado);
E080. Karen Elson, The ghost who walks (XL);
E081. Ran Slavin, The mediterranean drift (Crónica);
E082. The Burns Unit, Side show (Proper);
E083. M.I.A., /\/\/\Y/\ (XL);
E084. The Ruby Suns, Fight softly (Sub Pop);
E085. Goldfrapp, Head first (Mute);
E086. Beach Fossils, Beach Fossils (Captured Tracks);


F087. Four Tet, There is love in you (Domino);
F088. The Emeralds, Does it look like I'm here? (Mego);
F089. Horse Feathers, Thistled Spring (Kill Rock Stars);
F090. Women, Public strain (Jagjaguwar);
F091. Midlake, The courage of others (Bella Union);
F092. Delorean, Subiza (Mushroom Pillow);
F093. Warpaint, The fool (Rough Trade);
F094. John Grant, Queen of Denmark (Bella Union);
F095. Pocahaunted, Make it real (Not Not Fun);
F096. Lightspeed Champion, Life is sweet! Nice to meet you. (Domino);
F097. Robyn, Body talk (Konichiwa);
F098. Harlem, Hippies (Matador);
F099. Woods, At Echo Lake (Woodsist);
F100. The Tallest Man on Earth, The wild hunt (Dead Oceans).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Certa noite foi-me solicitada uma explicação sobre o que seria afinal o amor platónico. Expliquei que tudo tinha começado há muitos, muito anos, numa tarde em que Platão não andava, como era seu hábito, a desvirtuar rapazinhos, e que tinha acabado na manhã em que Goethe matou o jovem Werther.

terça-feira, 1 de junho de 2010

And then I felt sad because I realized that once people are broken in certain ways, they can't ever be fixed, and this is something nobody ever tells you when you are young and it never fails to surprise you as you grow older as you see the people in your life break one by one. You wonder when your turn is going to be, or if it's already happened.

Douglas Coupland, Life after God

sexta-feira, 28 de maio de 2010


Storia di alcuni minuti 5
"Desordem (Molto vivace, Vigoroso, Molto ritmico)"
Idil Biret: György Ligeti, Estudos, Livro 1 (Composição: 1985)


Nascido em 1923, György Ligeti apenas entrou em real contacto com a vanguarda musical europeia em 1956, quando, foragido de uma Hungria ocupada pelo exército soviético, se refugiou em Viena.
Até aí o único contacto que tinha com aquilo que ia sendo musicalmente conquistado além fronteiras, recebia-o a partir de um pequeno transístor que ouvia clandestinamente; agora, porém, frequentava o estúdio electrónico da Westdeuscher Rundfunk, onde também se encontravam Pierre Boulez, Luciano Berio, Mauricio Kagel e Karlheinz Stockhausen.
Aí, influenciado pelos seus colegas, mas sobretudo incentivado pela disponibilidade de meios, Ligeti desenvolveria o seu estilo híbrido no qual sons harmónicos, pentatonismo, heptatonismo e outros acordes temperados e não temperados são fundidos de forma a criarem uma linguagem musical que não obedece a um princípio geral, e onde existe espaço, até, para influências vindas do jazz e da música sul-americana.
Essa permeabilidade está, por exemplo, bem patente nos seus dois livros de estudos para piano. Escritos originalmente para piano mecânico, abrem espaço a uma reflexão sobre a música na qual o compositor não deve temer desrespeitar as suas próprias regras. Nas palavras de Ligeti: «A música não deve ter uma coerência absoluta. Mesmo uma fuga de Bach é uma construção cuja lógica é apenas aparente.»
Num dos meus estudos favoritos, “Desordem”, essas regras são engenhosamente postas em causa, à medida que a construção da massa sonora se vai fazendo com o executante a dar a impressão de que está a tocar linhas melódicas a mais de duas velocidades distintas, o que, na prática, faz deste um exercício onde dificilmente encontraremos uma estrutura identificável.