segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - àidéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Clarice Lispector, Restos do Carnaval

domingo, 2 de janeiro de 2011

2010 em livros

(Um apontamento claramente pessoal. Antes o meu 2010 em livros.)

Livros editados em 2010*:


Carson McCullers, O coração é um caçador solitário
01. Carson McCullers, O coração é um caçador solitário (Presença);
02. Graham Greene, O americano tranquilo (Ulisseia);
03. Philip Roth, O complexo de Portnoy (Dom Quixote);
04. Brendan Behan, Nova Iorque (Tinta-da-china);
05. Philip Roth, Casei com um comunista (Dom Quixote);
06. Alberto Moravia, Uma ideia da Índia (Tinta-da-china);
07. Chico Buarque, Estorvo (Dom Quixote);
08. Filinto de Barros, Kikia matcho, O desalento do combatente (Caminho).

Outras leituras (e releituras)*:Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, Volume II: À sombra das raparigas em flor

01. Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, Volume II: À sombra das raparigas em flor (Relógio D'Água, 2003);
02. Franz Kafka, O processo (Livros do Brasil, 2004);
03. F. Scott Fitzgerald, The great Gatsby (Penguin, 1994**);
04. Charles Dickens, Great expectations (Penguin, 1994**);
05. F. Scott Fitzgerald, Terna é a noite (Relógio D'Água, 1991);
06. Oscar Wilde, The importance of being earnest (Penguin, 1994**);
07. William Faulkner, Palmeiras bravas/Rio velho (Dom Quixote, 1993);
08. John Updike, Coelho em paz (Civilização, 2009);
09. John Updike, Coelho enriquece (Civilização, 2008);
10. Kenneth Grahame, The wind in the willows (Penguin, 1994**);
11. Charles Dickens, A tale of two cities (Penguin, 1994**);
12. Giani Stuparich, A ilha (Ahab, 2009);
13. António Lobo Antunes, A ordem natural das coisas (Dom Quixote, 1992);
14. Carson McCullers, A balada do café triste (Relógio D'Água, 2001);
15. Paul Bowles, O céu que nos protege (Assírio & Alvim, 2004);
16. John Updike, Regressa, Coelho (Civilização, 2008);
17. Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia (Tinta-da-china, 2008);
18. Elizabeth Bowen, The last September (Anchor, 2000);
19. Peter Carey, O Japão é um lugar estranho (Tinta-da-china, 2009);
20. Robert Walser, Histórias de amor (Relógio D'Água, 2008);
21. Malcolm Lowry, Através do canal do Panamá (Relógio D'Água, 1991);
22. Julien Green, Paris (Tinta-da-china, 2008);
23. Alexandra Lucas Coelho, Oriente Próximo (Relógio D'Água, 2007);
24. Luciano de Samósata, História verdadeira (Estampa, 1989);
25. Rosa Liksom, Os paraísos do caminho vazio e outros contos (Relógio D'Água, 1994).

Não-ficção*:


J.M. Keynes, A Grande Crise e outros textos
01. J.M. Keynes, A Grande Crise e outros textos (Relógio D'Água, 2009);
02. Graham Bennett, Soft Machine: Out-bloody-rageous (SAF Publishing, 2005**);
03. Zachary Karabell, Superfusion: How China and America became one economy and why the world's prosperity depends on it (Simon & Schuster, 2009**);
04. Ben Fong-Torres, The Grateful Dead Scrapbook (Chronicle Books, 2009**).


* Segundo data de edição ou reedição em Portugal, excepto em **.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pois é, estás a ver como sou bonzinho, mamã. Não consigo fumar, quase não bebo, nada de drogas, não peço dinheiro emprestado nem jogo às cartas, não sou capaz de dizer uma mentira sem começar a suar como se estivesse a passar o equador. É verdade que digo muitas vezes foda-se, mas garanto-te que os meus êxitos no domínio da transgressão se resumem mais ou menos a isso.

Philip Roth, O complexo de Portnoy (Dom Quixote, 2010)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

JACK: I am sick to death of cleverness. Everybody is clever nowadays. You can’t go anywhere without meeting clever people. The thing has become an absolute public nuisance. I wish to goodness we had a few fools left.
ALGERNON: We have.
JACK: I should extremely like to meet them. What do they talk about?
ALGERNON: The fools? Oh! about the clever people, of course.
JACK: What fools!

Oscar Wilde, The importance of being earnest

domingo, 28 de novembro de 2010

2010 em discos

Não constitui novidade para ninguém: há muito que a indústria discográfica possui morte anunciada e, face às cada vez mais magras receitas, é normal que as grandes companhias discográficas se juntem às pequenas na aposta em projectos mais baratos. Este tendência, castradora, de início, no que respeita à edição, cria uma bola de neve: aquele punhado de álbuns escolhidos todos os anos pelos órgãos do costume, massificam a tendência e, com isso, despoletam o aparecimento de novos projectos com determinadas características, ao passo que empurram para o canto outros que as não reúnem.
Junte-se a isto a predominância de alguns produtores e a velocidade com que tudo isto circula pelo mundo inteiro através de várias ferramentas, que na Internet são disponibilizadas gratuitamente, e chegamos à situação actual, em que considero fazer mais sentido uma simples ordenação qualitativa daquilo que ouvi (dividida em grupos, pois se alguns discos são ela por ela, outros há que muito distam entre si), ao invés de uma lista dos melhores álbuns do ano.


A001. Swans, My father will guide me up a rope to the sky (Young God);
A002. Holy Fuck, Latin (XL);
A003. Motorpsycho, Heavy metal fruit (Rune Grammofon);
A004. Robert Wyatt/Gilad Atzmon/Ros Stephen, For the ghosts within (Domino);
A005. Kevin Eubanks, Zen food (Mack Avenue);
A006. Wolfgang Mitterer, Massacre (Col Legno);
A007. Grigoryan Brothers, Distance (Material Label);
A008. Esperanza Spalding, Chamber Music Society (Telarc);
A009. The Black Keys, Brothers (Nonesuch);
A010. Neil Young, Le noise (Reprise);
A011. Vampire Weekend, Contra (XL);
A012. The Chieftains featuring Ry Cooder, San Patricio (Hear Music);
A013. Secret Quartet, Bloor Street (Edition);
A014. Dylan LeBlanc, Paupers field (Rough Trade);
A015. Mumford & Sons, Sigh no more (Universal);
A016. Jaga Jazzist, One-armed bandit (Universal);
A017. Janelle Monae, The ArchAndroid (Bad Boy);
A018. Laura Marling, I speak because I can (Astralwerks);
A019. Arcade Fire, The suburbs (Mercury);
A020. Pat Metheny, Orchestrion (Nonesuch);
A021. Tame Impala, Innerspeaker (Modular);
A022. Gil Scott-Heron, I'm new here (XL);
A023. Brad Mehldau, Highway rider (Nonesuch);
A024. Brian Wilson, Brian Wilson reimagines Gershin (Disney);
A025. The Fall, Your future our clutter (Domino);
A026. Liars, Sisterworld (Mute);
A027. Laurie Anderson, Homeland (Nonesuch);
A028. Sleigh Bells, Treats (Mom & Pop);
A029. Eliza Carthy & Norma Waterson, Gift (Topic);
A030. Patty Griffin, Downtown church (Credential Recordings);
A031. The Dead Weather, Sea of cowards (Third Man);
A032. Robert Plant, Band of joy (Decca);
A033. John Legend & The Roots, Wake up! (Sony);
A034. Richard Thompson, Dream attic (Beeswing);
A035. Spock's Beard, X (Brainforest);
A036. Bryan Ferry, Olympia (Virgin);
A037. Best Coast, Crazy for you (Wichita);
A038. The Roots, How I got over (Def Jam);
A039. My Brother The Wind, Twilight in the crystal cabinet (Transubstans);
A040. AfroCubism, AfroCubism (World Circuit);


B041. Paul Motian, Lost in a dream (ECM);
B042. Dave Rawlings Machine, A friend of a friend (Acony);
B043. Owen Pallett, Heartland (Domino);
B044. Menomena, Mines (Barsuk);
B045. Max Richter, Infra (Fat Cat);
B046. The Chemical Brothers, Further (Astralwerks);
B047. Gayngs, Relayted (Jagjaguwar);
B048. LCD Soundsystem, This is happening (DFA);
B049. Joanna Newsom, Have on me (Drag City);
B050. Deerhunter, Halcyon Digest (4AD);
B051. Big Boi, Sir Lucious Left Foot...The son of Chico Dusty (Def Jam);
B052. The Divine Comedy, Bang goes the knighthood (Divine Comedy);


C053. The Foreign Exchange, Authenticity (The Foreign Exchange Music);
C054. The National, High violet (4AD);
C055. Beach House, Teen dream (Bella Union);
C056. Matthew Dear, Black City (Ghostly);
C057. Maps & Atlases, Perch patchwork (Barsuk);
C058. The Futureheads, The chaos (Dovecote);
C059. Stone Temple Pilots, Stone Temple Pilots (Atlantic);
C060. Linda Martini, Casa ocupada (Rastilho);
C061. Devo, Something for everybody (Warner Bros.);
C062. Tiago Guillul, V (Flor Caveira);
C063. Caitlin Rose, Own side now (Names);
C064. Shit Robot, From the cradle to the rave (DFA);
C065. Pantha Du Prince, Black noise (Rough Trade);


D066. Carolina Chocolate Drops, Genuine Negro Jig (Nonesuch);
D067. John Ellis & Double-Wide, Puppet mischief (Obliqsound);
D068. Hot Chip, One life stand (EMI);
D069. Caribou, Swim (Merge);
D070. Black Tusk, Taste the sin (Relapse);
D071. Broken Bells, Broken Bells (Sony);
D072. Ariel Pink's Haunted Graffiti, Before today (4AD);
D073. Twin Shadow, Forget (4AD);
D074. Elephant9, Walk the Nile (Rune Grammofon);
D075. Fang Island, Fang Island (Sargent House);
D076. The Walkmen, Lisbon (Fat Possum);
D077. Jamey Johnson, The guitar song (Mercury);


E078. MGMT, Congratulations (Columbia);
E079. The Sword, Warp riders (Kemado);
E080. Karen Elson, The ghost who walks (XL);
E081. Ran Slavin, The mediterranean drift (Crónica);
E082. The Burns Unit, Side show (Proper);
E083. M.I.A., /\/\/\Y/\ (XL);
E084. The Ruby Suns, Fight softly (Sub Pop);
E085. Goldfrapp, Head first (Mute);
E086. Beach Fossils, Beach Fossils (Captured Tracks);


F087. Four Tet, There is love in you (Domino);
F088. The Emeralds, Does it look like I'm here? (Mego);
F089. Horse Feathers, Thistled Spring (Kill Rock Stars);
F090. Women, Public strain (Jagjaguwar);
F091. Midlake, The courage of others (Bella Union);
F092. Delorean, Subiza (Mushroom Pillow);
F093. Warpaint, The fool (Rough Trade);
F094. John Grant, Queen of Denmark (Bella Union);
F095. Pocahaunted, Make it real (Not Not Fun);
F096. Lightspeed Champion, Life is sweet! Nice to meet you. (Domino);
F097. Robyn, Body talk (Konichiwa);
F098. Harlem, Hippies (Matador);
F099. Woods, At Echo Lake (Woodsist);
F100. The Tallest Man on Earth, The wild hunt (Dead Oceans).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Certa noite foi-me solicitada uma explicação sobre o que seria afinal o amor platónico. Expliquei que tudo tinha começado há muitos, muito anos, numa tarde em que Platão não andava, como era seu hábito, a desvirtuar rapazinhos, e que tinha acabado na manhã em que Goethe matou o jovem Werther.