segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Deep Purple, Come taste the band

Diz-me a presunção que os Deep Purple de 1975 devem ter apanhado todos de surpresa, e que muitos julgaram a mark IV condenada a não sobreviver à saída do guitarrista, e membro fundador, Ritchie Blackmore. Fazendo justiça a essas pessoas, que não conheço e apenas julgo terem existido, o Come taste the band é um álbum em que os Deep Purple não soam a Deep Purple – não completamente, pelo menos -, e uma etapa de onde não decorreriam sequelas. Dito isto, também é um álbum fenomenal, exactamente (ou assim me parece), por causa da saída de Blackmore e da liberdade criativa que isso deu ao grupo. De resto, só assim se percebe o soltar da franga de um grupo que começou a debitar funk com a ginga que faltou aos Led Zeppelin, em «The crunge»,e se permitiu regressar aos épicos com «This time around/Owed to 'G'».

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Algumas pessoas lamentam que as crianças venham ao mundo sem manual de instruções ou que não se peçam estudos e uma licenciatura para sermos pais. Subjaz a estas frases pretensamente graciosas a perigosa convicção de que não se pode criar adequadamente uma criança sem seguir os conselhos de um especialista de serviço. Na realidade, em geral os pais até desempenham bastante bem essa função, como o têm feito durante milhões de anos. A maioria dos erros que cometem não foram eles que os inventaram, mas especialistas antes deles. Foram médicos que recomendaram, há um século, dar de mamar durante dez minutos de quatro em quatro horas, o que levou ao fracasso quase total da amamentação. Foram os farmacêuticos que, há apenas sessenta anos, vendiam «pós para a dentição» à base de mercúrio, extremamente tóxicos, que se deviam ministrar aos bebés para os fazer babar, pois a «baba retida» causava doenças graves. Foram médicos e educadores que, há dois séculos, advertiram que a masturbação «secava o cérebro» e inventaram castigos terríveis e complexos aparelhos para impedir as crianças de se tocarem. Foram especialistas aqueles que há cinco séculos recomendavam que se envolvessem as crianças como múmias para que não pudessem gatinhar, porque deviam andar como as pessoas e não arrastar-se pelo chão como animais. É possível que todos os erros que cometemos ao educar os nossos filhos sejam o sedimento de séculos de conselhos errados de psicólogos, médicos, padres e feiticeiros. Menos mal que as crianças não tragam instruções, menos mal que não exista um curso para formar pais!

Carlos Gonzáles, Bésame mucho (Tradução de Isabel Haber)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Journey, Espace

Após anos a ouvi-lo em meios menos próprios e, alguns, com uma qualidade de bradar aos céus, eis que me resolvi a encomendar o Escape, dos Journey, na Amazon. Chegou hoje, ao meu local de trabalho, motivando uma viagem de regresso a casa com tudo aquilo a que julguei ter direito: auto-estrada, vento a passar, volume alto. A imagem é um lugar-comum, e com tão poucas pretensões de ser algo mais quanto  a música contida nesse disco, sendo até essa uma das suas qualidades que mais aprecio, numa altura em que a coolness parece ter chegado a tudo o que foi feito, muitas vezes, apenas para que os folks tivessem uma noite de sábado mais animada e, se possível, com algo que falasse deles e das suas vidas simples (o John Denver e o Bob Seeger que o digam – coitado do Bruce Springsteen).

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sábado, 25 de janeiro de 2014

Weather Report, Confians

Olhava para a carreira dos Weather Report como um crescendo até ao aparecimento do Jaco Pastorius (o pico situava-se entre o Black market e o Heavy weather). Depois ouvi o Night passage e, ainda que menos imediato, não consegui largá-lo durante umas boas semanas. Isto, claro, deu-me vontade de explorar o que até aí me tinha despertado pouco interesse: o último álbum do Jaco Pastorius com o grupo, o errático Weather report, e os álbuns posteriores, já com o Victor Bailey. Destes, conhecia bem o Procession, de que gostava bastante, o que, em parte, me ajudou a entrar nos álbuns seguintes, onde o Wayne Shorter se vai apagando para surgir, no seu lugar, um Joe Zawinul bem entendido na exploração das potencialidades dos novos teclados de então (pasmem-se os cepticos com o seu álbum a solo Dialects). Porém, nada neste percurso me podia ter preparado para a magnificência desta canção do Mino Cinélu, que o grupo decidiu gravar e incluir no álbum Sportin' life.


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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ernest Hemingway once wrote, in a letter to his friend F. Scott Fitzgerald, “When you get the damned hurt, use it. Use it and don’t cheat.” Use it, don’t let it use you. Hemingway knew a thing or two about the “hurt”; it dogged him for much of his life, ran like a seam through many of his fictional caracters. Self-mythologisingold curmudgeon he may have been at times – his former wife, the acclaimed journalist Martha Gellhorn, once described their five-year marriage as “life-darkening” – but he never cheated, even when he pulled the trigger of the gun that ended his life.

Deep emotional pain is a condition that allows immunity to no one. Hemingway won a Nobel Prize for Literature in 1954; Nelson Mandela won the Nobel Peace Prize almost forty years later. Yet, in 1996, Mandela, then presidente of South Africa, stood in a Johannesburg courtroom and gave testimony about a struggle – but not the political struggle that had seen him imprisioned for almost thirty years, or the battle to undo decades of apartheid and rebuild his country. It was the struggle to overcome the unhappiness of his fractured marriage to his wife, Winnie. In a statement to the court hearing their divorce proceedings, he said, “I was the loneliest man during the period I stayed with her.”

Karen O'Brien, Joni Mitchell: Shadows and light

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

The pleasantly round-faced girl in the Riverboat audience was watching her husband drink Joni Mitchell in. The singer's long golden hair floated around her doll's face while her shimmering voice chanted of flowers and sun-warmed shoulders and seabirds soaring out of reach. "Call, and I follow, I follow!" cried the look on the husband's rapt face. "And just who do you think would mend your socks, buster?" asked the small, pained, ironic smile on the face of his wife.

Karen O'Brien, Joni Mitchell: Shadows and light