terça-feira, 25 de Novembro de 2014

2014 em temas


Esta lista podia ter sido tirada a papel químico do alinhamento do meu álbum favorito deste ano. Gosto muito de todos os temas e teria, por certo, muito a dizer sobre cada um deles. No entanto, ao fazer esta selecção tive em conta outro aspecto que me interessa muito mais do que o razoavelmente simples gostar, e que tem a ver com o achar poderem ser estes os temas que mais facilmente ouvirei no futuro por considerar terem uma especial relevância para o agora.

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01. Rennée Fleming, Yo-Yo Ma & Billy Childs, New York Tendaberry
Do álbum Map to the treasure: Reimagining Laura Nyro



«New York Tendaberry» é uma canção de 1969, mas, de certa forma, também é de 2014, uma vez que esta versão lhe abre perspectivas que não existiam no original de Laura Nyro. Ao contrário do fizeram, também este ano, os The Bad Plus com A sagração da Primavera, uma versão que reduz a peça de Stravinsky às bases que fazem funcionar a peça original, Billy Childs decidiu, não só seguir algumas sugestões presentes na versão de Nyro, como ir além desta em algumas partes. E se o papel de Rennée Fleming se resume a ancorar uma versão à outra, a contribuição de Yo-Yo Ma dá a esta aquilo que a torna muito mais do que uma curiosidade.

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02. Pat Metheny Unity Group, Sign of the season
Do álbum KIN (←→)

Pat Metheny Unity Group, KIN (←→)

A carreira do Pat Metheny tem alternado entre períodos em que anda mais perto do jazz tradicional e períodos em que está mais permeável a outros universos que mescla de forma a nunca perder um cunho pessoal. E se imagino que esta continuidade na alternância sirva bastante bem os ouvintes que lhe vão seguindo a carreira, aos detractores, a previsibilidade, quiçá associada ao sucesso, é nada menos do que deplorável. Demais a mais foram opiniões desse tipo que motivaram o próprio Metheny a lançar, em 1994, Zero tolerance for silence, um álbum com cinco peças para guitarra solo, cujo som abrasador originou comentários bastante entusiásticos por parte de Thurston Moore, então dos Sonic Youth, e que quebrou radicalmente esta alternância – ainda mais do que a sua colaboração com Ornette Coleman, em Song X, ou com Derek Bailey, em The sign of 4.
Tempos mais próximos, porém, têm trazido o guitarrista de volta aos territórios que melhor se lhe conhecem. E se a surpresa há muito se perdeu, a qualidade da execução e, principalmente, a qualidade da escrita têm evoluído, adquirindo subtilezas que antes não se lhe ouviam. Este «Sign of the season» é, de entre os temas de KIN (←→), o melhor exemplo disso, à parte de também ser um brilhante exercício de gestão de material musical.

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03. Marc Perrenoud Trio, Igor
Do álbum Vestry lamento



Apesar de já ter alguns álbuns gravados, e de ter sido agraciado com algumas distinções dignas de nota, como o Montreux Jazz Chrysler Award, em 2003, Marc Perrenoud só agora começa a ver o seu trabalho ser reconhecido internacionalmente, tendo o seu álbum mais recente, Vestry lamento, lançado internacionalmente este ano, recebido uma crítica muito elogiosa na distintíssima revista Downbeat.
De resto, ao ouvir a fluidez de «Igor», segundo tema desse disco, é fácil entender o entusiasmo. O que não se percebe muito bem é onde acaba a composição e começa o improviso, ou se tudo é composição tal como era do agrado de Debussy, dando a impressão de uma improvisação. Certo é que este trio, que conta ainda com Marco Müller, no contrabaixo, e Cyril Regamey, na bateria, consegue arrancar de uma composição como «Igor», que muitos teriam dificuldade de levar por diante, uma ligeireza que lhes parece, simplesmente, escorrer dos dedos.

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04. Motorpsycho, Kvæstor (including Where greyhounds dare)
Do álbum Behind the sun



Os Motorpsycho têm, desde que os descobri em 2010, com o álbum Heavy metal fruit, sido bastante frutíferos na sua produção musical. E ainda que fosse expectável que a fonte de ideias não acompanhasse, na mesma medida, a calendarização das edições, o certo é que todos os discos são bastante interessantes e até, como aconteceu com o The death defying unicorn, de 2012, arriscados e excepcionalmente pululantes de criatividade.
O álbum deste ano, Behind the sun, segue de perto o de 2013, Still life with eggplant, sendo nessa medida um esforço ligeiramente inferior. No entanto, é-o apenas nessa perspectiva, uma vez que os seus créditos estão bem firmados em faixas como «Cloudwalker (A darker blue)», «Hell, Pt. 4-6: Traitor/The tapestry/Swiss cheese mountain» e, especialmente, nesta «Kvæstor [Incl. Where the greyhounds dare]» - um instrumental repleto de guitarras que, volta e meia, se servem de um riff maquinal proveniente de um teclado para dispararem a melhor linha melódica que o rock tem para oferecer este ano.

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05. Vashti Bunyan, Holy Smoke
Do álbum Heartleap



Há uma frase na canção «Chimacum rain», de Linda Perhacs, que descreve maravilhosamente «Holy smoke», de Vashti Bunyan. Nela, Perhacs canta «I'm seeing silence between leaves», e, ao fazê-lo, canta sobre esse mesmo espaço sem forma definida, feito de pequenos contrastes e de muitas outras subtilezas onde também habita esta canção de Vashti Bunyan.
Uma sensibilidade tal para o momentâneo, para o irrepetível que se colhe agora e se processa a seu tempo, só se podia traduzir, aliás, em carreiras longas com discografias curtíssimas, quer para Vashti Bunyan, quer para Linda Perhacs, assinando ambas, este ano, aqueles que se prevêem ser os seus derradeiros álbuns, Heartleap e The soul of all natural things, registos número três e dois, respectivamente, de carreiras com mais de quarenta anos.
 
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06. Marius Neset & Trondheim Jazz Orchestra, In the ring
Do álbum Lion



A primeira impressão que se tem ao ouvir «In the ring», de Marius Neset, é a de que se está perante um novo Michael Brecker, o que, aliás, até é incentivado pela editora de Lion, a ACT, que promove o disco, e o saxofonista em particular, com uma citação do The Guardian que o descreve como sendo possuidor, tanto da pujança de Brecker, como da delicadeza de Jan Garbarek.
Todavia, algumas audições mais tarde, é possível perceber que de Brecker, Neset apenas herdou o tom e uma certa forma de enfrentar as peças, como o recurso aos ostinatos que se podem ouvir um pouco por toda a duração de «In the ring». Quanto a Jan Garbarek, esqueçam. É outra coisa.

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07. Univers Zero, Phosphorescent dream
Do álbum Phosphorescent dream

Univers Zero, Phosphorescent dream

Ainda que dos Univers Zero nada possa suplantar o magnífico Heresie, de 1979, é sempre um bom investimento ouvir o que de novo esta banda belga tem para mostrar. E se os álbuns mais recentes revelavam uma certa estagnação, em Phosphorescent dream, agora com Antoine Guenet nos sintetizadores, e Nicolas Duchêne na guitarra, os Univers Zero voltam, novamente, a ser pertinentes. No tema que fecha o disco seu homónimo, em especial, a banda regressa a um negrume que já lhe foi mais característico, e que é agora pontuado por uma guitarra que, embora não perfeitamente sincronizada com os restantes instrumentos, no início do tema, tem o condão de funcionar como se de um instrumento de um ensemble de música contemporânea se tratasse, quando seria tão fácil estragar o retrato com o tom errado, um volume despropositado ou, tão-somente, a falta de moderação.

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Alan Callan (Swan Song Records, 1977-79): In 1977 I was at the Plaza Hotel in New York with Jimmy Page, and we were going out somewhere. It was absolutely pissing down as we walked out through the side of the door of the hotel to where the limo was waiting.
As the doorman takes us to the car, a woman standing in the doorway in a fur coat says: «What do I have to do to get some attention here? Look at these two with their jeans and long hair – how come they got a car immediately?»
The doorman says: «Well, ma’am, it’s like this: the first guy there, he’s been practising what he’s good at since he was six years old. If you went home and did the same, you’d probably get a limo when it rained.»

Barney Hoskyns, Trampled under foot: The power and excess of Led Zeppelin

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

 Univers Zero
É fácil dizê-lo agora, mas afianço-vos que, há uns anos, pensei numa composição para os Univers Zero carregadinha de ostinatos à heavy metal, mas para piano e instrumentos de sopro em vez de guitarras. Ainda bem que foram os próprios a escrever 'Shaking hats', tema que abre o álbum de 2014, Phosphorescent dreams.

domingo, 5 de Outubro de 2014

King Crimson
Não sei se quero ou não saber destes King Crimson actuais. Ao ouvi-los sou até capaz de sentir um certo prazer mental quando me apercebo de como tudo está estruturado e parece encaixar-se; contudo, falta-me a excitação de ouvir algo que me arrebate pelo que é no imediato. (E tudo isto porque adorei esta fotografia.)

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Childhood itself is a myth for almost all of us. We think we remember what happened to us when we were kids, but we don’t. The reason is simple: we were crazy then. Looking back into this well of sanity as adults who are, if not totally insane, then at least neurotic instead of out-and-out psychotic, we attempt to make sense of things which made no sense, read importance into things which had no importance, and remember motivations which simply didn’t exist. This is where the process of myth making begins.

Stephen King, Danse macabre

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

It’s always hard to start to concentrate. The mind darts like a chicken, trying to escape thinking even though thinking is the most rewarding function of man. Doc could take care of this. When you know what you’re doing you can handle it. He set his jaw and was starting to turn back to his desk when he saw out of the corners of his eyes the flash of a skirt. He looked out the window again. A girl had come out of the Bear Flag and was walking along Cannery Row toward Monterey. Doc couldn’t see her face, but she had a fine walk, thigh and knee and ankle swinging free and proud, no jerk and totter the way so many women walked as they fell from step to step. No, this girl walked with her shoulders back and her chin up and her arms swinging in rhythm. It’s a gay walk, Doc thought. You can tell so much by a walk—discouragement or sickness, determination. There are squinched-up mean walks and blustering walks, shy creeping walks, but this was a gay walk, as though the walker were going happily to a meeting with someone she loved. There was pride in the walk too, but not vanity. Doc hoped she would not turn the corner, but she did. There was a flick of skirt and she was gone. But Doc could see in his mind her swinging limbs, the melody of her lithe, swift movement. Probably ugly as a mud fence, he thought, and then he laughed at himself. “That’s full circle,” he said. “Mind, I congratulate you. You jumped me to sex, translated it to aesthetics, and ended with sour grapes. How dishonest can I be? And all because I don’t want to go to work. I’ll work my head off to avoid work. Come, mind. This time you don’t get away with it—back to the desk.”

John Steinbeck, Sweet thursday